sábado, 7 de julho de 2007

Felicidade

Basta saberes que és feliz,e então
Já o serás na verdade muito menos:
Na árvore amarga da meditacao,
A sombra é triste e os frutos têm venenos.
Se és feliz e o não sabes,
tens na mão o maior bem
entre os mais bens terrenos
E chegaste à suprema aspiracao,
Que deslumbra os filósofos serenos.
Felicidade...Sombra que só vejo,
Longe do Pensamento e do Desejo,
Surdinando harmonias e sorrindo,
Nessa tranquilidade distraída,
que as almas simples sentem pela vida,
Sem mesmo perceber que estão sentindo...

"FELICIDADE"
Raul de Leoni(1895-1926)

sábado, 19 de maio de 2007

O diferente...


"Ah, o diferente, esse ser especial!
Diferente não é quem pretenda ser.
Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora,
momento e lugar errados para os outros.
Que riem de inveja de não serem assim.
E de medo de não agüentar, caso um dia venham a ser.
O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato.
Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas.
Supondo encontrar um chato onde está um diferente,
talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas.
Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato.
Chato é um diferente que não vingou.
Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem.
Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro.
Diferente que se preza entende o porquê de quem o agride.
Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer -
alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores.
O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual,
a inveja do comum, o ódio do mediano.
O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão,
mas que está sempre certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário,
onde os demais, de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos, por omissão,
se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura.
O que é percepção aguçada em: "Puxa, fulano, como você é complicado".
O que é o embrião de um estilo próprio em:
"Você não está vendo como todo mundo faz?"
O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando.
Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram
(e se transformam) nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso.
O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber.
Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno, agridem e gargalham.
É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram.
Quer onde outros cansam. Espera de onde já não vem.
Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores.
Fala de leite em reunião de bêbados.
Cria onde o hábito rotiniza.
Sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera.
Aceita empregos que ninguém supõe.
Perde horas em coisas que só ele sabe importantes.
Engorda onde não deve.
Diz sempre na hora de calar.
Cala nas horas erradas.
Não desiste de lutar pela harmonia.
Fala de amor no meio da guerra.
Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar.
Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio,
e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.
Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados,
magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo,
excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande,
de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba.
Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além.
Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam
para os pouco capazes de os sentir e entender.
Nessas moradas estão tesouros da ternura humana.
De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente.
A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois."

Artur da Távola

Pensamentos de Drummond


Tela de Frederick Edwin Church


"Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."

sexta-feira, 18 de maio de 2007

As Meninas


As Meninas - Velásquez

Uma das minhas telas prediletas!!! É fantástico não só os detalhes como a precisão de Velasquez nesta obra...a perfeita distribuição de luz e sombra.....uma nitidez fora do comum ....A obra está sendo pintada por ele....ele olha para seu modelo...seremos nós o seu modelo, já que ao admirar a tela nos colocamos diante do seu olhar artistico?.... mas se observarem bem há quadros no fundo, serão simples quadros ou há algo distinto ....o que se revela? Há realmente um modelo?Ou modelos?.... Uma crítica fantástica sobre esta tela foi escrita por Foucoult, aos interassado , é uma pedida e tanto!!!
Até mais,
Maíra Motta

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Florbela Espanca

Fumo
Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!
Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...
Invoco o nosso sonho!
Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...
Florbela Espanca

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Goya e Neruda


Tela de Goya


" En la noche entraremos hasta su tenbloroso firmamento, y tu pequenas manos y lás mías Roubaran las estrelas"
Pablo Neruda

Vênus com espelho




Muitos clamam por viver...
viver...
viver...
...e ser feliz!!!
Mas o que é ser feliz?!
Errar e acertar,
Sonhar e acordar,
Sorrir e chorar,
e no final só aprender???
Viver é aprender a morrer...
a cada instante!
Deixar passar o passado e viver apenas o presente...
Sem medo,
Sem preconceitos,
Espantando-se
A felicidade está aí...
Seja na beleza de Vênus ou na pedra que está no caminho...
A felicidade está aí...
Em saber morrer para viver,
pois só há vida se há morte!!!
Maíra Motta 09/04/2007






Vênus com espelho - Tela de Velásquez

terça-feira, 27 de março de 2007

"A leitura e a sombra"


O mistério da leitura está em nós!!! Quando lemos algo.....fazemos uso do nosso entendimento...refletimos acerca dos pensamentos e conceitos que chegam até nós...Mas de modo algum devemos crer que a nossa pretensa compreensão foi na realidade exatamente a mesma que o autor quis nos transmitir em sua obra. As experiências de cada um com a linguagem e ainda com o uso que fazemos dos conceitos do nossa entendimento podem ser considerados como elementos que atuam também subjetivamente em nosso entendimento, onde este último se encontra em pleno movimento quando, ao termos consciencia de nós mesmos, nos debruçamos em uma obra e compreendemos algo que parte de nós mesmos no movimento iniciado pela própria obra. Se observarmos esta tela de Renoir , é fato que ela irá afetar cada um de uma maneira distinta, e por mais que estejamos a ver a mesma mulher, lendo o mesmo livro, jamais saberemos a intenção da sua criação e a exata expressão transmitida pelo autor. Sendo assim, não podemos afirmar nada sobre a obra a não ser apenas o modo como esta nós afeta os sentidos e como a compreendemos!!! Pois são estes sentimentos, que, ao serem subsumidos à conceitos pelo nosso ato de compreensão possibilita a própria comunicação, posto que os elementos puros a priori do nosso entendimento sõ universais, revelam assim subjetivamente.... o mistério da própria compreensão.... Cada um é afetado de uma maneira particular... isto nos faz diferentes, e a linguagem é nosso único meio de externar nossa compreensão do mundo!!! O mistério paira no ar .....podemos observar e dizer sobre as sombras mas nunca as coisas em si mesmas!!!!
Maíra Motta 27-03-2007 A leitura e a sombra - Tela de Renoir

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Sapere Aude !!!

A Época do Esclarecimento
O filósofo alêmao Immanuel Kant define esclarecimento (Aufklärung) como a saída do homem da sua menoridade. Ele compreendia o período em que vivia como uma época de crítica.Tanto a religião, a política quanto à própria razão deviam se submeter ao livre e público exame, pois a todos os homens deve ser dado o direito de fazer uso do seu entendimento, de se esclarecer. Devemos compreender este esclarecimento como o momento em que ao homem é dada a possibilidade de se considerar livre, longe de toda e qualquer coerção, seja ela civil ou religiosa, pois só assim, abandonado a si mesmo e tendo a possibilidade de fazer uso do seu próprio entendimento ele pode desenvolver sua razão vindo a tornar –se um ser autônomo e esclarecido. A importância do livre pensar e da busca pela autonomia não é simplesmente defendida por Kant por se revelarem atitudes mais dignas de um pensador imerso no iluminismo, mas integra um projeto muito mais amplo, um projeto sobre o qual se ergue toda a sua filosofia pratica, e consiste, portanto em pressupostos básicos para o homem atingir sua maioridade e conseqüentemente atribuir a razão a o seu papel de legisladora, possibilitando assim ao homem a capacidade de se compreender como ser moral.
A época da maioridade, "do impulso para procriar e da capacidade de procriar", afirma Kant: "Foi fixada pela natureza na idade aproximada de 16 a 17 anos, idade em que o adolescente se torna, no estado primitivo da natureza, literalmente homem", neste período ele tem a capacidade de procriar, de se manter e suprir todas as necessidades advindas da sua espécie.Tais disposições não foram dadas ao homem em vista de um estado organizado, mas sim "em vista da conservação de espécie como espécie animal" Assim, torna-se inevitável à existência de conflitos entre tais disposições e no estado de civilização, conflitos estes que segundo Kant só podem ser solucionados em uma constituição civil perfeita, que possibilite a coexistência de todos os arbítrios e a liberdade de todos os seus cidadãos, "pois atualmente este intervalo é preenchido em geral, por vícios que tem como conseqüência a miséria humana sob todas as suas formas". Somente quando é concedida ao homem a possibilidade de fazer uso do seu próprio entendimento, de refletir e bem julgar suas ações, compreendendo o uso da sua razão, ele passa a compreender não apenas os limites desta, mas também as suas possibilidades. É este esclarecimento que caracteriza o refinamento da sua capacidade de julgar e de refletir imprescindível ao homem para que se torne um dia, ainda que daqui a um número considerado de gerações, o "homem especial" exigido pela filosofia pura.
Maíra Motta em 20/02/2007